Moçambique: Reabilitação do Autódromo irá renascer o automobilismo na "Pérola do Índico"
Data: 25/07/2006 16:25
No passado dia 14 de Julho, quando a Direcção do Automóvel Touring Clube de Moçambique (ATCM) lançou a primeira pedra para a renovação do Autódromo de Moçambique (ex-Autódromo de Lourenço Marques), virou-se mais uma página do automobilismo na "Pérola do Índico" e do desporto que tanto gostamos nas antigas colónias de Portugal. Os tempos do Império fazem parte do passado, mas Portugal deixou as raízes e bases para um futuro que promete ser interessante.
Apesar de muito apagado, o desporto automóvel em Moçambique não desapareceu completamente após a retirada massiva dos portugueses. Em 1981 deu-se o ano da reactivação do desporto motorizado em Moçambique, pois depois da independência nacional, em 1975, a prática do automobilismo havia sido proibida (!), sendo levantada a proibição seis anos mais tarde. Essa oportunidade não foi desperdiçada pelos amantes da modalidade que reactivaram o Automóvel Touring Clube de Moçambique. No dia 17 de Agosto de 1991 foi eleita a Assembleia-geral e no dia 2 de Setembro, do mesmo ano, é realizada a primeira reunião e nela ficou definida a primeira direcção do clube. Nesse mesmo ano, Rui Morgado, em Mercedez-Benz AMG, foi o vencedor da primeira corrida pós-independência, aonde estiveram na grelha de partida 17 carros. Em 1995, houve a reedição da prova de resistência denominada "2 horas de Maputo". Em Outubro de 2005, Moçambique foi aceite na Federação Internacional do Automóvel (FIA) para orgulho de todo o país.
A 14 de Julho de 2006, a Direcção do Automóvel Touring Clube de Moçambique (ATCM) fez o lançamento da primeira pedra para Construção e Reabilitação do Autódromo sob orientação do Sr. António Marques, Presidente da Direcção. O acto foi caracterizado por uma cerimónia tipicamente tradicional moçambicana, tendo como objectivo invocar os espíritos das famílias que ali habitaram antes daquele local ser transformado num local para a prática do Desporto Motorizado, por forma a que as obras corram sem constrangimentos. Logo de seguida começaram os trabalhos, estando previsto a sua conclusão daqui a seis meses.
Visivelmente emocionado, o Presidente António Marques considerou o acto como marcante para a história do clube e que a sua Direcção estava sempre disposta à contribuir para o desenvolvimento do Desporto Motorizado e em geral do País. O investimento será no valor de 1.867.965 Dólares americanos (USD), mais 331.785 USD que custará a vedação em redor do recinto construído pelos portugueses. O projecto do clube é atingir o patamar "C" na classificação dos padrões da FIA.
A Construção e Reabilitação do Autódromo contempla as seguintes infra-estruturas previstas para ser implantadas no complexo desportivo: Pista de Automobilismo, Pista de Karting, Pista de Motocross e Plataforma de Iniciação de Condução Defensiva (K-53). No que respeita ao que nos interessa, está incluída a reabilitação da pista de automobilismo e motociclismo existente e a construção de um novo trecho do circuito segundo o novo traçado, para adaptação ao novo desenho, mantendo-se a largura da pista existente - 9m na parte mista e 10m na recta principal. Não sendo nesta fase executado o alargamento para 12m/15m conforme projecto inicial.
"Está prevista a reinauguração do Autódromo, o mais tardar, na segunda quinzena de Janeiro. Depende naturalmente primeiramente, das referidas autorizações e posteriormente esperando que não caia chuva diluviana em Dezembro. Neste preciso momento, quase que nos limitamos a realizar provas de Karts, Raids de Todo-o-Terreno (Motas e Carros) e Provas de Arranque (Drag Racing) para motas e carros. A pista principal está cortada na zona do cotovelo ou na "South Africa corner", como ultimamente lhe chamávamos. Era assim conhecida porque os pilotos Sul-africanos despistavam-se habitualmente naquela zona do circuito. É nosso objectivo começar desde já o contacto com os agentes de marcas no sentido de organizarmos um troféu Monomarca no país. É intenção desta Direcção igualmente convidar o Kikas Paixão para a reinauguração! É também vontade do actual Sócio Nº1, o Felinho Pronto, convidar o Xavier de Melo para a mesma cerimónia", explicou o Presidente do ATCM ao SportMotores.com.
Como o parque automóvel local não é muito vasto, o clube moçambicano está a considerar convidar para a festa de inauguração pilotos das regiões vizinhas, naturalmente África do Sul deverá dar uma forte ajuda. "É tradição do desporto motorizado em Mocambique termos uma forte ligação com à África do Sul em termos desportivos e vamos mantê-la. Quanto a Namíbia não vai ser fácil. No que diz respeito a Angola, vamos fazer uma força para que tal aconteça, pois desde que fizemos em Outubro de 2004 o Raid Maputo-Luanda-Maputo, temos sido convidados para correr no Autódromo de Luanda em Motas e Carros. Claro, que chegou a nossa vez de organizar também, vamos retribuir a gentileza".
O ex-colonizador, o país "irmão", como Portugal ainda não está tão próximo como as entidades locais gostariam. "A grande incógnita vai ser com Portugal que desde da reactivação do ATCM em 1987 que não nos ligam nenhuma. infelizmente, nem colaboram connosco! O ACP, por exemplo, quando necessitamos dos estatutos do Clube para iniciarmos com o processo legal pós-independência..." A vontade dos moçambicanos é sem dúvida receber o amparo e a experiência de Portugal, e do lado da 'nossa' FPAK, por exemplo, também existe vontade e total abertura para colaborar nos próximos anos com os países de língua oficial portuguesa. Portanto, é de acreditar que a breve trecho ambas as entidades oficiais se aproximem e encetem laços de cooperação.
Quanto ao futuro, o ATCM acredita que é possível dinamizar a velocidade local através do apoio dos importadores moçambicanos, pois as grandes provas internacionais, como chegaram a ser realizadas nas décadas de 60 e 70, ainda não fazem parte dos planos. Um troféu parece ser o primeiro passo. "Estamos a pensar realizar para o ano um troféu monomarca. Nissan, Toyota, Renault foram as marcas escolhidas por nós, para posteriormente preferirmos uma e iniciarmos as negociações.", finalizou o nosso interlocutor.
Depois de duas décadas assombradas por de duas nefastas guerras (colonial e civil) e meia década a recuperar, Moçambique, um país que tantas e boas memórias deixou em muitos portugueses, tenta agora renascer para o automobilismo¿
Sérgio Fonseca
in sportmotores.com
Projectos em "banho Maria"...